30 de nov. de 2012

(In)acabado

imagem: weheartit


Inquietava.
Não era ruim, eu sabia.
Não havia compasso, mas eu andava.
Às vezes, caía no seu abraço e


C
A
Í
A
...


Alguma brisa arrastava,
Varria da alma
E despejava:
Caminhos azuis,
As feras do passado;
A risada alta do desespero.

Espero...
As folhas bagunçadas pelo vento.

O mal insistiu na cabana arruinada.
Vi o manto preto cair mostrando o sol
 E a parede subir trazendo a escuridão parada.

O quadro balançou,
Eu pensei numa saída.
A porta bateu,
Você saiu... 

A partida.

Nas ruínas,
Destaquei borboletas,
Engoli brilhos para ver se eu via
O bem que antes sumia.
(Não me enganei, existia).


Sim, eu tinha:
Todas as armas,
Toda magia;
Nenhuma coragem,
Alguma força.


by Rachel Nunes*

17 de nov. de 2012

Quão distante?

imagem: weheartit


(Vidro quebrado)
Na janela de madeira descascada,
Eu vejo longe o perto de mim.
Na lâmpada queimada,
Contemplo o que abandonei no fim –
Copo meio cheio e vazio por inteiro.

(Fogueira apagada)
Fora da casa, na praia cintila:
O fogo da razão,
O frio agoniante da imensidão.

(A porta cai)
Do nada.
De repente, o tudo.
Toda a confusão que a calma leva consigo.

(Saiu da janela)
E agora, onde está?
Tão perto do sim
Ou tão longe de si?


by Rachel Nunes*

12 de out. de 2012

Terremoto.

imagem: weheartit



Tortura é o que dilacera aquilo que o não ver não sabe o que é.


Vai e não passa.
Esquenta e não congela.
Faz de uma alma a morada do desterro.
Enterra no ar a palavra que desata o nó.
Desamarra no solo o grito da dor
De quem amolece a rocha da água
E apodrece.
Fede no espírito o que o amor conservou. 
Cospe na carne de um gêmeo desconhecido.

Sempre...
Perdoar toda a falta do presente,
Descartar a alegria do que mente,
Estremecer a folha da calmaria,
Saborear a doce agonia.


by Rachel Nunes*

30 de ago. de 2012

(ver)dade.

imagem: weheartit
 
 
Não entende.
 
Será este o ponto-chave de tudo o que vivemos?
Por que será que gosto tanto deste verbo?
O que vejo nele?
Será o passado que insisto em evitar experimentar
Ou será o futuro que não desejo lembrar?
 
O que será daquilo que não vejo?
Será que ainda há solução para o invisível?
Será ele a própria cura?
 
O que mais pode ser de alguém  que nunca foi?
O que precisa acontecer
 Até que a poesia desista e vá embora?
 
 
by Rachel Nunes*
 

30 de jul. de 2012

Repetição



imagem: weheartit


Continua a cantar.
Custa a quebrar.

Carina custou a desistir.
No dia decisivo
O fato perdeu o faro.

Ao pé da janela 
Coração apunhalado por um caco - 
Pequeno pedaço 
De um frasco fraco
 De alguma bebida dura.

Dura vida que em fumaça desaparece...

E não é que parece mesmo!
O que pára é o mesmo que canta?

E ali ainda ecoa
Num canto da sala
O mesmo canto de sempre:

Três passadas, dois suspiros, um solo.

by Rachel Nunes*

13 de jul. de 2012

Das certezas

imagem: weheartit


Parece até que o impossível pode mudar.
Parece até que o abismo é o mesmo lugar:
Uma areia molhada, dois pés que afundam.

Parece até que a brisa nunca morre.
Que a chuva é a contínua sorte.

Parece até que a carne é sincera.
Que a primavera nunca congela.

Parece até que a ventania é distante.
Que a vida não passa de um caminho errante.

Parece até que a estrada é deserta.
Que a saída é uma porta aberta.



Tudo parece muito certo, limpo e fácil,
Quando quem abre os olhos é o tão conhecido, o hábil,
O mais perfeito, o estranho,
O doce mar, o desengano.


by Rachel Nunes*

18 de jun. de 2012

Cativeiro da (ir)realidade


imagem: tumblr


Aprisionados.

Entre paredes
De aço molhado pela frieza,
Congelado pela fraqueza,
Habitantes amordaçados
Com a fita da pobreza.

Janelas de vidro cegas,
Olhos de carne apodrecida.

Mãos escorregadias,
 Mente traída,
Por quem não somente
Diz a verdade,
 Levanta a bandeira da mentira.

A quem não fala, a fome.
A quem não vê, aquilo que ganha e some.

__“Atirem pedras na janela! É a revolução!"
__“Não! Nessa casa estão as armas, não o ladrão”.

by Rachel Nunes*